sábado, 10 de setembro de 2011

Chicorinha e a última cruzada

A minha amiga Vanessa é uma que vive angustiada. O Robson, marido dela, a chama de "Mulher Angústia". Mas a diferença entre nós duas é que a Vanessa é uma angustida bem humorada enquanto eu sou uma neurótica.

Fico aqui olhando a minha pequena hortaliça adormecida em sua cadeirinha de balanço e daqui a pouco já me pego pensando nos perigos que a casa oferecerá quando ela estiver engatinhando, e isso já me angustia. Olho novamente pra ela e calculo o tanto de fraldas que estou descartando no meio ambiente e me pergunto o quão poluído será o mundo daqui a algumas décadas. Penso em que tipo de garotos se aproximarão dela, se estarei sempre perto quando houver algum perigo, se ela não vai teimar em fazer ginástica olímpica e me matar do coração cada vez que der um duplo carpado, que se eu não lhe arranjar irmãos quando ela estiver bem velhinha poderá ficar solitária, enfim, eu penso em tudo isso e mais um pouco. Penso inclusive que zelar demais por ela pode ser prejudicial por não lhe dar a oportunidade de aprender a lidar com os problemas por si mesma...

Sei lá, na minha cabeça trazer uma pessoa pro mundo sempre foi algo de uma enorme responsabilidade, tipo como se a gente fosse deuses-trainee gerando vidas. E eu enquanto deusa gerente administradora de uma vida quero fazer tudo certo e do meu jeito, ou seja, sem sacanear minha criaturinha.

O que me ameniza toda essa angústia é acreditar que esta geração de crianças bem cuidadas vai acabar encontrando uma solução para o problema do lixo, do aquecimento global, da violência e viverá num mundo talvez bem melhor que o nosso, e que esse monte de filhos únicos vai acabar se juntando e sendo tudo amigo na velhice. Mas se isso não acontecer eu ainda acredito que vou conseguir dar uma educação que a proteja de tudo o que é do mal (e quando eu penso nisso eu sempre imagino aquela cena do Indiana Jones 3 que em que ele ainda jovem chega correndo ao escritório do pai e este o manda contar até dez em latim - porque o Indy, este sim, foi um cara bem criado)...

Quero que ela saiba das armadilhas da vida mas que não perca a leveza, o bom humor e essa incrível capacidade das crianças de não se apegarem à dor e sim ao divertimento, que ela faça bem feito o que tiver escolhido pra fazer para que seja independente e feliz com seu trabalho, que ela se alimente direitinho e faça exercícios - e acho que dar esse exemplo provavelmente é a parte mais difícil da minha missão - e que valorize o que realmente importa na vida: a amizade, a Natureza, a coragem, a bondade, a sabedoria, a criatividade, a alegria, a nobreza do coração. Porque acho que o único jeito de se lidar com este mundo é assim, como Henry Jones Jr. fazia: curtindo uma vida pacata na maior parte do tempo, preservando os grandes tesouros, virando herói sempre que necessário e tomando muito cuidado com o veneno das cobras...

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